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O consumidor ativo e os videoclipes interativos
De acordo com Henry Jenkins na obra “Cultura da Convergência” (2008), as narrativas transmidiáticas (transmídia) proporcionam ao receptor uma experiência mais rica e atrativa em termos de entretenimento. Partindo desta perspectiva, é muito comum no mercado do show business a utilização de recursos interativos entre os diversos meios, como o conteúdo de um seriado que circula por diferentes plataformas (TV, cinema e videogame), e os meios e os espectadores, como a produção de um videoclipe a partir da ação dos usuários. E é sobre isso que trataremos no post de hoje.
Como exemplo inicial, citaremos a banda de rock norte-americana Red Hot Chilli Peppers, que divulgou em fevereiro um videoclipe interativo para a canção “Look Around”, faixa que integra seu mais recente disco. O clipe é inovador e permite que o usuário interfira na composição do vídeo, que é dividido em quatro ambientes, ocupados por um dos quatro integrantes do grupo. Quem assiste ao vídeo pode escolher qual cômodo e qual músico acompanhar ao controlar o movimento da câmera através do mouse. O espectador também pode acessar links escondidos em cada cenário que mostram cenas dos bastidores e making off do videoclipe, além de curiosidades sobre a banda. Os recursos disponíveis despertam a curiosidade e permitem que cada espectador tenha a chance de produzir e assistir vídeos diferentes. A partir daí, o usuário deixa de assumir um papel passivo diante do que consome para agora começar a interferir nos produtos disponibilizados pelas diferentes mídias, principalmente pela internet.

Confira versão interativa do videoclipe da canção “Look Around”, da banda Red Hot Chili Peppers clicando aqui.
Outro exemplo da não-passividade do consumidor diante dos novos produtos das diversas mídias, e neste caso, dentro da música com a ajuda da internet, é o videoclipe da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. Em comemoração ao Dia dos Namorados, o grupo promoveu uma ação, intitulada Móveis Cupidos de Acaju, para gravar o videoclipe da canção “Dois Sorrisos”, uma parceria da Móveis com o cantor Leoni. Realizada na cidade natal dos músicos, no dia 12 de junho do ano passado, a mobilização inclui declarações de fãs da banda aos seus companheiros através de serenatas de amor transmitidas em tempo real aos músicos pelo Skype. As melhores declarações apresentadas na ação foram gravadas e incorporadas no vídeo, que também conta com a participação de Leoni em tempo real através da tela do computador.
Videoclipe da canção “Dois Sorrisos”, do grupo Móveis Coloniais de Acaju
Ainda falando da banda Móveis Coloniais de Acaju, as estudantes de comunicação social da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) Ítala Santana, Laiz Dias e Tailane Marques realizaram o projeto “Você no Videoclipe: Para Manter ou Mudar” na tentativa de produzir um clipe colaborativo da música “Pra Manter ou Mudar”, da Móveis, através da participação online de fãs e admiradores da banda. A ideia das meninas era desenvolver o projeto em duas etapas, onde primeiramente a narrativa do videoclipe seria decidida pelo público através de uma votação, para em seguida receber vídeos da história produzidos pelos fãs por meio de câmera digital, celular ou webcam. No fim de tudo, estes produtos seriam acrescentados ao conteúdo já produzido pelas estudantes. Para facilitar a organização do “Você no Videoclipe”, Ítala, Laiz e Tailane desenvolveram um blog para divulgação do projeto onde as ideias circulavam e eram compartilhadas com os seus participantes.
Videoclipe da faixa “Pra Manter ou Mudar”, também da Móveis Coloniais
Podemos perceber em ambos os exemplos a presença de duas ideias-chaves trabalhadas por Jenkins (2008): os conceitos de cultura participativa e de inteligência coletiva. A ideia de Cultura Participativa caracteriza a mudança de comportamento do consumidor contemporâneo, que deixa de lado o papel passivo assumido diante dos meios analógicos para interagir de forma ativa no conteúdo dos produtos da era digital a partir de um sistema complexo de regras que deve ser entendido e dominado pelo coletivo. Já o conceito de Inteligência Coletiva se refere a uma nova forma de consumo que acontece em processo conjunto, a partir da troca de informações e da discussão de conteúdo entre os diversos consumidores de um determinado produto que podem gerar ou não a produção de um conteúdo similar ao originalmente produzido. É importante ressaltar que mesmo com participação intensa do receptor, ainda existe o controle das interações do público a partir dos produtores, que delimitam até onde o conteúdo produzido pelo consumidor pode interferir ou não no produto final.
Na obra “O Mundo Codificado”, Vilém Flusser trata de um novo homem que não se concentra mais em suas “ações concretas”, mas sim nas “sensações”, nas experiências que surgem a partir da própria vivência do cotidiano e da inserção dos produtos midiáticos com algo parte do dia-a-dia:
“Esse novo homem que nasce ao nosso redor e em nosso próprio interior de fato carece de mãos. Ele não lida mais com as coisas, e por isso não pode mais falar de suas ações concretas, de sua práxis ou mesmo de seu trabalho. O que lhe resta das mãos são apenas as pontas dos dedos, que pressionam o teclado para operar com os símbolos. O novo homem não é mais uma pessoa de ações concretas, mas sim um performer. (…) Para ele, a vida deixou de ser um drama e passou a ser um espetáculo: Não se trata mais de ações, e sim sensações. O novo homem não quer ter ou fazer, ele quer vivenciar. Ele deseja experimentar, conhecer, e sobretudo, desfrutar.” (FLUSSER 2007, p. 58)
Esse novo homem citado por Flusser também pode ser percebido no espectador que de certa maneira ajudou a produzir os videoclipes comentados no post. A possibilidade de interagir e contribuir com o conteúdo transmite ao receptor a sensação de controle de conteúdo, além de gerar uma identificação no consumidor do produto. Esse é o novo homem que quer vivenciar, experimentar, conhecer e desfrutar. A posição de receptor ativo que interfere no produto só foi alcançada a partir do desenvolvimento das tecnologias e dos meios digitais, principalmente dos computadores e da internet, onde o homem encontrou a possibilidade de deixar de lado o trabalho braçal e concentrar suas atividades “nas pontas dos dedos, que pressionam o teclado para operar os símbolos”.
Karen Monteiro